borras de.

Confio nas bruxas,
na existência discreta das bruxas,
que preparam seus feitiços em textos,
poemas, mensagens, fotografias, cigarros, sorrisos.
A única sabedoria que resta aos homens bons
– se é que ainda há homens bons –
é confiar na existência das bruxas, suas plantas,
seus insetos, tatuagens, suas receitas, sua medicina.
Sua fé no divino não óbvio,
escondido em mapas, cartas de tarot e borras de café.

foi uma bruxa
que pousou a mão em minha testa e disse:
este tem o dom da profecia. desde então
eu não fico em nenhuma igreja: tenho medo grotesco
de que a vocação de oráculo se revele e eu.
tenha que abandonar a mundanidade
pra ficar lá. servindo a Apolo
ou a outro deus do patriarcado mesquinho.
eu fujo de Buda, dos sutras, da Bíblia. eu
tenho medo dos deuses.

ainda assim, professo.
começou aos dezesseis ou antes.
sonhar é um ato de raridade ou ansiedade:
eu sonho com coisas que vejo depois.
às vezes é, às vezes não é. Sempre acaba sendo.
na fuga diacrônica de mim encontrei refúgio
na feitiçaria de um livro suspeito.
comecei a praticar meditações e escrever.
estudei latim, estudei os antigos.
e foi no oráculo da roda do mundo que. achei

eu sou um jogador de moedas.

Anúncios

Quase-carta

Nunca morreu ninguém perto de mim. Digo: pessoas que são me próximas, quem choraria no enterro. Já fui a enterros, sim, mas não eram meus. De pessoas de mim. Nem mesmo meu cachorro, Toth, morrera. Ele só foi. Tais acontecimentos – ou melhor, a ausência de acontecimentos, me impede de entender, escrever, consolar, falar com pessoas que perderam pessoas queridas. Eu ensaio mil mensagens que queriam ser abraços, mas nenhuma delas chega a ir.

Se um lado penso que o silêncio talvez seja a única coisa que cuide de uma ausência de morte, de outro procuro palavras que sejam um afago. Neste vai e vem, nunca escrevo. Porque qual o sentido de palavras prontas de “força, querida!”? “Meus pêsames”? O que raios é pêsames, esta palavra maldita evocada sempre e somente nessas horas? Eu não sei se isso ajuda, não sei com se sentem os que leem mil mensagens de pesamesagens eu não sei. Não aguardo nem cultivo ânsias pelo momento em que saberei, pois aí é porque morreu alguém.

A morte dos avós, de todas, é a que mais me apavora. Porque ela é sabida desde a mais tenra infância. Uma anedota aqui de casa diz que quando perguntaram ao meu irmão onde vovó estaria quando ele crescesse ele pequenino disse: “cê vai ser esqueleto, vovó”. Percebe? A velhice era pra ser um aviso, mas sabe, acho que a morte é sempre uma surpresa. Eu, que nunca ainda fui surpreendido.

Três parágrafos pra dizer que li que sua avó aborreceu de viver aqui e, sabe, a foto tinha um sorriso tão grande, teu escrito tinha uma honra – é honra a palavra, que os novos não usam mas devíamos, pra dizer que louvamos, admiramos, mantemos – uma honra de poder aprender na vida e ver.
Cê é uma das que conseguem ver. Li o soneto dela, e quando cê escreveu que ela gosta de poesia brotou

um sorriso brotou em mim, uma flôzinha de entendimento, sabe: as coisas que sei são poucos, mas desconfiava um brilho nos olhos d’ocês duas desde a foto que vi – e saber que ela gostava de poesia me põe a pensar que ela era daquelas que vê.

Eu escrevo por motivos variados, mas nunca nada que escrevo nesses meios aqui é indiretagem. Quando quero um alvo, eu alveio e mando, sabe? Então se você acaso ler este texto, eu peço desculpas triplas: por não ter te enviado diretamente; por ter gritado conversas mansas; por falar tanto só pra dizer que

imagino tristezas, tem aquele livro que fala de tudo, acho que disso também: tem aquela dica da carta de 5 de maio de 1903. Que fala de Jacobsen. É possível achá-lo em inglês na rede: se acaso não lês me diga que dou meu jeito de traduzir porque há coisas que precisam ser lidas.
Essa quase-carte é pra dizer que eu queria te dar um abraço, embora não saiba se precisa e não saiba o que te dizer, sabe
eu não sei lidar com aborrecimentos.

2018-08-23

flores e colheres

desde que parei de comer cadáveres de pessoas, eu tenho notado a absoluta desnecessidade de armas à mesa. Como, cada vez mais, de inocentes colheres. Feito uma criança, não preciso de mais nada além de uma colher. Se uso facas, é antes, elas não são convidadas pra sentar comigo na mesa. Mantenho, assim, a inocência do ato de me nutrir.

Ouvi dizer que inocência é uma palavra cuja origem é algo como “aquilo que não causa dano”. Triste que tenha virado um jeito de dizer alguém pela sua tolice, falta de maldade: “Sabe de nada, inocente.”

pois cá estou aqui, jantando meus feijões de colher, como no tempo em que me era permitido ser menino. Depois, fui obrigado a pegar em armas, pois me disseram grande demais pra colheres: deram-me faca para cortar pessoas que mortas estavam lá no prato. É isso que fazem com a gente, tiram nossas colheres, nos chamam de grandes e nos obrigam a machucar as pessoas. Tem gente que chama isso de “adulto”. Tem gente que até acredita.

Sabe, parar de comer gatos, cachorros e afins foi um ato não de escolher, mas de ver: reparar com os olhos que os bichos são como eu ou você.

As coisas todas tem seu brilho e inteligência, só cabe apurar o seu reparar. Quando olhamos com ternura pros bichos, sempre tem um idiota pra dizer que “as plantas sentem dor também”. Sabe, elas devem de sentir mesmo, do jeito delas. Se eu pudesse, não as comia também. Uma discípula, florista, me disse hoje: “as plantas são seres tão sofisticados. Cê já pensou que elas comem luz?”

Eu fico aqui pensando, com minhas colheres:

luz deve ter gosto de que?

A gente dá boa noite porque

A gente dá boa noite pras pessoas porque, sabe, dormir é quase feito morrer. Por isso precisamos disso: uma despedida. Quando começamos a amar alguém, veja só: surge essa vontade louca de dar boa noite pra ela. Pra ele. Pra dizer: ei, vou dormir, mas amanhã espero acordar. Pra você. Acho que esse um dos muitos significados deste dizer: damos boa noite antes de dormir pra quem nos faz motivo de acordar.

Esses tempos nossos de uatisapo e distância permitem medir isso direitinho: pega o histórico e vê quando vocês começaram a se avisar que iam dormir. É uma história de amor nascendo, nesse singelo cuidado de interromper a conversa, porque começar amanhã de novo é gostoso demais: muito mais que esses papos estranhos sem começo meio e fim, essas mensagens soltas, rasas, afins.

Só que às vezes, seja lá porque, cê não pode dar boa noite pra quem você queria dizer. Cê só pensa antes de dormir. Às vezes é uma paixão em começo, uma admiração. Uma queda: se você for como eu, você quer dar boa noite até pro amor que ainda não nasceu. Nela, ao menos. Ruim mesmo é quando é uma briga, um rompimento. É coisa doida não poder desejar boa noite a quem você sabe que vai aparecer nos seus sonhos… Dói. Mas sabe… A gente pode morrer amanhã atropelado pelo 49, que sempre tira fino de mim de bicicleta. Então toma coragem, pega esse seu celular, escolhe dois emojis fofinhos e manda uma mensagem assim:

ei, tu: boa noite. (aqui os emoji fofinhos).

E deita pra dormir, arfando de coragem. Segura a ansiedade de resposta, guarda ela pra amanhã quando você tiver passando um café. Quem sabe não vem uma flô te dando bom dia, uma conversa. Um boa noite que chegou quando você já dormia, sei lá, só sei que: a gente tem que preencher com amor o que tava no vazio silenciado, pra criar uma coisa nova que ninguém sabe o que vai ser, ô

amor é bom é assim: quando é cria do não saber,
porque é aí
é aí que tudo pode acontecer.

[mas pra isso, tem que tomar coragem, vá lá, pega:
e começa a escrever ;) ]

2018-07-24

A primeira vez

A primeira vez que estive em nova york – que por acaso foi também a última – eu: no transporte alternativo de lá engarrafado pra entrar em Manhattan, crescendo uma sensação impossível de familiaridade, não: de reconhecimento. das ruas, dos prédios, padrões geométricos. Nessa ansia de entender como e porquê, vasculhei memórias e: SpiderMan. True Crime. Eu passei a infância percorrendo a tiros aquela cidade, nos mapas precisos de videogame: muito antes do gugou-mapas, os três-dês precários já eram exatos nos prédios, praças, esquinas.
No primeiro dia, sai a deriva e me perdi. Fui parar numa praça suspensa de linha de trem, e fiquei ali envelhecendo no que o ascensorista indiano do Empire State me deu nome de entendimento uma semana depois: autumn sun. Outono eu só ouvia falar nas músicas sobre folhas que caem e cores que mudam. Até que fui ao Central Park e vi as folhas: foi quando entendi pela primeira vez o significado da palavra primavera.
Uma semana antes, naquele jardim-praça suspenso, desci ainda perdido e fui parar numa loja de coisas esotéricas. Badauê, não sei como fala isso em inglês. A senhora da loja gostou da minha cruz Inca e conversamos a beça. Ela perguntou se eu tinha me mudado pra lá: “Are you a newyorker”? Foi quando me senti em casa e percebi que não estava no Estados Unidos. Como disse meu amigo da Georgia: estava em NY, era outra coisa. Era mesmo.
Como quando evangélicos me pararam pra pregar sobre Female God. Eu disse que voltava pro Brasil antes do culto acontecer, eles disseram: sem problemas, você procura nossa igreja lá. Eu ri, e acabei ouvindo tudo: o feminino de Deus na calçada da Quinta Avenida.
Por aquelas ruas previsíveis eu encontrei o Mestre Yoda que me acompanha sempre; me senti acolhido numa cidade onde o inglês tem todos os sotaques do mundo. Qualquer um parece ser dali. Se bem que eu não tinha barba na época, né. Vá saber.
Parei no memorial do John Lennon e comecei o chorar com o moço tocando imagine no violão. Quando me recompus, pedi a um senhor de barba feito hermeto tirar uma foto minha, ele perguntou donde eu era. Contei, ele abriu sorrindo dizendo Brazil! E começou a falar espanhol comigo. Seja o Rio ou New York, te digo: Todas as terras são maravilhosas, o que as estragam são os nativos.

2018-07-23

Dia do amigo é dia do amor

às vezes eu olho pra minha curta vida e uma vozinha malandra diz assim: “seus amores deram todos errado, gabriel”. Ai eu pego a vozinha, guardo na mesma caixinha que guardo meus estudos de língua alemã: a caixinha das coisas burras que fazem eu perder meu tempo.

sabe porque? Porque como me lembrou a Carol Bataier: aquela música do All-Star azul é sobre amor, mas não é de namorado, não, seu bobão. É coisa de migo, de miga. Pausa este texto pra ler um melhor, clica aqui
Leu? Então. Riobaldo me disse que amigo é aquela pessoa que você gosta de conversar assim demorado, desarmado. De estar perto ser bom assim, de graça. Oxi, eu tenho muito amigo no mundo, eu sou bençoado por demais.

Descobri também que eu tenho amores mesmo, sabe. Tem amigo que eu sou apaixonado, que eu quero encostar, dar abraço. É que amizade de homem – ao menos nessa masculinidade hétero nossa, né – não tem muito toque. Ainda bem que tenho meus amigos beesha pra me lembrar que pode encostar sim. [tem um monte de homem adoencendo de violência por aí, eu te digo: é falta de cafuné, rapaz. De carinho.]

Amigas. A maior descoberta da minha vida é que se apaixonar por mulheres não significa sexualizar o rolê. Há tantos amores no mundo, larga desse desejo fálico de penetrar todos eles. Serve pra ômi, serve pra mulher o aviso. Amar é bem mais que isso.

Eu amo meus amigos e amigas porque eles me aturão sendo prolixo. Olha este texto: sete parágrafos pra dizer:

feliz dia do amigo

2018-07-20

Recado da Central ao sábado

“Prezados senhores: as linhas estão temporariamente suspensas devido a um acesso indevido aos trilhos.”

São oito e mais de meia,
eu a caminho de Vaz Lobo pro treino
– que não mais chegarei pois houve um

“acesso indevido aos trilhos.”

Chego perto do segurança,
pergunto o que houve, amigo? ele diz
Acidente, vai demorar pra liberar a via.

Na minha cabeça se repete

“acesso indevido aos trilhos.”
“acesso indevido aos trilhos.”
“acesso indevido aos trilhos.”

A indignidade da morte é comparável
apenas a indignidade da vida
no transporte público do Rio.

Regresso a minha cidade
A baia de Guanabara é sempre linda
aos sols de sábado de manhã os navios

feito a frota da nação do fogo.
o mercado é um incêndio na central
enchendo os ônibus pra zona sul.

Penso no direito à cidade, quer saber:
O Rio não é uma cidade,
O Rio é um acidente, um erro,

o Rio é um acesso indevido aos trilhos.

sobre hierarquia dos dias

A presença pesada do sábado a noite destrói todos os discursos bonitos de liberdade, pensa: quem tu convidas a um chá na quarta, tu investirias tua manhã de domingo? Há uma hierarquia de valores nos dias, que molda nossos relacionamentos, desejos, afetos. A hierarquia dos valores dos dias impõe uma economia simbólica do uso de nosso tempo: organizar a semana é dar valor ao uso dos dias, num mapa que inconsciente aplica valores às pessoas com quem partilhamos o tempo. Pensamos os jovens romper padrões, eu rio: sem perceber que a semana serve a ordem dos deuses e por isso crava no mundo mortal a hierarquia que no olimpo já havia. Ha deuses maiores e menores. Pessoas também. Não dedico a Júpiter o dia de Mercúrio: e assim serve aos homens e mulheres os dias. Tente romper e acabará no ostracismo de quem não entende a ordem do mundo: pensando amores aos domingos de tarde e amizades aos sábados, terminarás confuso e sozinho nos seus convites aos cafés sempre mal compreendidos. A hierarquia dos dias determina os relacionamentos a dois ou mais, a família, os flertes, as férias, os trabalhos, os deuses: tente sair e não sairá porque veja só: já é dia do sol.
Ninguém te perguntou o que era seu dia.

2018-07-22

Notas de estudo do corpo espiralado.

descobri que meus ombros são alavancas
e que há um espaço mole entre a costela e o quadril
por onde passa meu braço torto:
rotatória de ombro guiado de mão
quando quero retornar ao feto. de onde vim.
por onde vão
minhas pernas
quando descubro que duas elas são.
não sou um bloco eu. não sou uma tábua.
fazer amor com o chão, ela disse. é preciso
abandonar todo desejo de fuga ou força:
não há amor na ânsia de ir embora
nem na insistência de ficar. ela disse:
é como fazer amor com o chão.
cair ao chão com a mesma tensão elétrica
entre o relaxamento e a agilidade
do arrepio dos amantes: algo que joga, pesa
mas passa vai desliza vem encosta e não fica.
para redemoinhar-se é preciso
repetir dez mil vezes o rolo de si
em várias cadências, solos, riscos
para redemoinhar no chão é preciso
apenas de pés, apoios, cabeça,
subir levantar no giro de pacto
ela espiralada. um corpo
redemônho. de si.

ainda não entendi.

– x –

Notas de estudo do corpo espiralado.